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Quedas de Braço em Famílias Empresárias

por André Silveiro (1)

“There’s no such thing as a person who isn’t competitive.”
Ashley Merryman (2)

      Essencialmente, as empresas são formadas por pessoas, melhor dizendo, por um grupo de indivíduos. Logo, a solidez das empresas depende delas estarem sustentadas por uma equipe de pessoas coesas, ligadas por vínculos saudáveis e construtivos.

      Vínculos saudáveis são baseados em uma boa interação do grupo, em um ambiente de respeito às diferenças, com compartilhamento de cultura, valores e objetivos, com uma boa comunicação entre todos, o que permite enriquecedoras trocas de informações, potencializa suas capacidades individuais e complementares em prol da assimilação de novos conhecimentos, adaptação ao mercado e decorrente aumento de produtividade nos negócios e da maximização de resultados.

      No entanto, não é raro que no convívio de qualquer equipe, surjam “enfrentamentos de vaidades”, também chamadas de “disputas de egos”, que produzem longas discussões, desgastes, redução da comunicação e distanciamento interpessoal. Quando sócios e gestores mantêm ainda uma relação de parentesco entre si, com sobreposição de papéis, os embates são amplificados por complexas interferências emocionais entre eles.

      Quando prevalece um clima de disputa, tende a surgir dificuldade de solução até de simples questões objetivas que poderiam ser facilmente resolvidas com uma comunicação fluida. Contudo, toda vez que um tema é transformado em arena para medição de forças, seu processamento se delonga, ou se soma à lista de pendências não equacionadas, uma vez que cada um bate pé, teimosamente, na sua crença em busca de prevalência: “dessa vez não vai ser do jeito dele, é como eu digo ou não serve...”.

      Nesse diapasão, mesmo quando se chega a um desenlace após acomodar todas as vaidades, o resultado tende a ser tardio e desvirtuado. Por isso se diz que o “camelo é o cavalo projetado por um comitê”.

      Com o acúmulo de pendências, multiplicam-se as contrariedades e descontentamentos, que tendem a fermentar como ressentimentos e sedimentar mágoas inseridas em situações progressivamente conflitivas.

      Os conflitos são uma decorrência natural dos vínculos humanos e, quando enfrentados, podem ser benéficos na medida que revelam problemas de relacionamento antes obscurecidos; quando criam oportunidades para as pessoas abordarem contrariedades mal deglutidas, exporem seus sentimentos e desabafarem emoções; e quando levam os indivíduos a clarificar suas ideias e desenvolver sua capacidade de negociação, multiplicando as alternativas para resolver questões práticas, ensejando aumento de criatividade e motivação e catalisando a busca de soluções.

Todavia, impasses e conflitos não resolvidos trazem efeitos negativos à família e à empresa, como dificuldade e desconforto nas interações, sofrimento psíquico, redução no intercâmbio de informações relevantes, aumento de estresse, desperdício de tempo, bloqueio do processo decisório e progressiva má alocação de recursos.

      Com efeito, os desgastes erodem progressivamente as relações interpessoais, as quais, se não administradas, vão minando a capacidade dos grupos de convergir, reunir e canalizar os esforços em uma mesma direção. Ditos impasses começam a consumir longas e infrutíferas reuniões, esterilizando núcleos pensantes que deveriam estar atuando de forma dinâmica e inovadora para responder ou se antecipar às mudanças do mercado.
Enquanto prevalecem as posturas desagregadoras, as boas ideias de uns passam a ser boicotadas pelos outros e vice-versa, envenenando a atmosfera de trabalho. O resultado é a ruptura nas comunicações, a paralisia nas interações, a insatisfação disseminada e a perda de eficiência, que podem, ao longo do tempo, estagnar a empresa e, em casos mais graves, inviabilizar as operações. Pouca atenção é prestada nas empresas familiares para o real abalo na performance corporativa resultante das dificuldades dos relacionamentos e consequente subutilização dos talentos humanos.

      Afinal, o que leva às disputas de ego e de poder nas famílias empresárias, que desembocam em tantas perdas econômicas?

      Nietzsche sustentava que o homem pode estar bem alimentado, bem abrigado e inclusive ter amor, mas se não tiver poder não estará satisfeito. Em outras palavras, as constantes quedas de braço são um funcionamento típico inerente à própria condição humana.

      É importante entender que essa dinâmica competitiva não é eventual, mas sim está presente, em maior ou menor grau, em boa parte do tempo em praticamente todas as modalidades de comunicação e de comportamento interpessoal.

      Realmente, nas diversas formas de relacionamento humano encontramos enfrentamentos acerca de quem se colocará em posição superior e inferior ao outro em cada tópico, matéria e situação do convívio, ou seja, levando as partes a se categorizar, definindo sempre a hierarquia desses relacionamentos, em uma ordem que pode, ou não, ser alternada entre os interlocutores para assuntos e situações diversas do plano do convívio.

      Mas em que tipo de mensagens e como ocorre essa comunicação categorizadora, com intenção de definir nosso ranking nas diferentes facetas do relacionamento?
Há que se entender que estamos nos comunicando em todos os momentos, e sendo sempre afetados pela comunicação alheia, sendo que todo o comportamento (até mesmo o silêncio) é uma forma de comunicação e todas as formas de comunicação afetam o comportamento. O padrão do vestuário, a marca do carro e muitos símbolos de status são habitualmente utilizados como meios de comunicação e posicionamento na escala social.

      O que nem sempre atentamos é que todas as mensagens que enviamos e qualquer forma de comunicação que promovemos carregam embutidos dois aspectos distintos, ou seja há um duplo propósito e significado sendo invariavelmente transmitidos.

      De um lado, na parte mais perceptível da mensagem, há a transmissão de uma informação relativa ao conteúdo de uma questão concreta. De outro lado, de forma mais subjacente, está sempre uma sutil manobra ou tentativa de categorizar e definir a hierarquia (3) do relacionamento no assunto em pauta naquele momento.

      Esta é outra maneira de dizer que uma comunicação não só transmite informações, mas que, ao mesmo tempo, define a intenção do remetente de como ele deseja estabelecer seu relacionamento com o destinatário da mensagem na situação em voga. "É assim que me vejo; É assim que vejo você. Entendo deter eu primazia nesse assunto, e poder assumir o protagonismo em tópicos envolvendo economia, futebol, nutrição e astronomia. Aceito ser coadjuvante em assuntos ligados à política, culinária, astrologia, dentre outros menos interessantes para mim. É assim que espero que você me veja e me trate”.
 
      Seguindo Bateson, essas duas operações passaram a ser conhecidas como o aspecto de "relato" e o aspecto de "comando", respectivamente, de qualquer comunicação.
Em interações mais saudáveis e produtivas, o aspecto de "relato" com transmissão de informações prevalece na busca de solução dos problemas práticos, ficando em segundo plano os aspectos de “comando" e suas manobras categorizadoras do relacionamento.

      Por outro lado, em interações conturbadas, como em famílias empresárias disfuncionais, ou transitoriamente vivendo uma situação estressante, o aspecto de “comando" passa a se sobrepor nas trocas de mensagens, ensejando rivalidade direta acerca da hierarquia do relacionamento, deixando relegado a um segundo plano o aspecto do conteúdo da comunicação.

      Isso fica mais fácil de observar nas escaladas verbais de discussões acirradas, onde a troca de informações vai sendo perdida na medida em que cada um interrompe o outro em tom cada vez mais alto, querendo ambos dar a última palavra e se impor como superior ao interlocutor.

      Nesses casos, as palavras pronunciadas vão perdendo qualquer vestígio de informação, de conteúdo ou significado concreto, passando, quase exclusivamente, a estar a serviço do esforço de manter a palavra, tentar prevalecer e se sobrepor ao outro (4).

      Alguns tipos de relacionamento são mais suscetíveis a estas disputas. Para entender melhor, vamos classificar as interações humanas em duas modalidades: elas podem ser complementares ou simétricas.

      Com menor suscetibilidade a disputas, as interações complementares são aquelas baseadas na maximização das diferenças entre os interlocutores o que geralmente é aceito entre eles, sendo que, dependendo da situação, uma das partes se situa naturalmente em uma posição “superior” (como entre um diretor e um funcionário, uma mãe e um filho, um médico e seu paciente, o professor e o aluno), e a outra parte se coloca em posição “secundária”.

      Não se trata de ser "forte" ou "fraco", nem "bom" ou "ruim", mas de se posicionar com maior ou menor autoridade, frente ao outro, em determinada temática balanceando a lacuna ou deficiência de um com a fortaleza do outro.
 
      De notar que, embora com menor propensão a embates, nada impede que um aluno arrojado, que estudou previamente a matéria, questione a afirmação do seu mestre. A pretexto de apresentar uma crítica ou agregar mais informações, o estudante pode estar também propondo, de forma subjacente, uma desafiante manobra para redefinir o relacionamento de complementar para simétrico, instaurando uma igualdade entre eles. O professor pode aceitar a manobra e reconhecer a competência simétrica do aluno naquela questão, ou rejeitar a manobra com uma contra-manobra que desqualifica ou relativiza o subsídio do aluno e o reconduz uma posição subalterna.

      Muitos casais têm relacionamentos complementares, seguindo o axioma físico de que “os opostos se atraem”. Esse fator realmente reduz as quedas de braço na interação, mas, em contrapartida, gera maior risco de dependência de um dos cônjuges em relação ao outro.

      Já a interação simétrica, é caracterizada pela maior igualdade entre as partes e pela minimização das diferenças, reduzindo a co-dependência, mas aumentando o risco de competição e disputas. Nessas situações, se um parceiro tentar se enaltecer mencionando uma proeza, o interlocutor tende a replicar destacando uma façanha não menos significativa, dando sequência à medição de forças.

      Mesmo assim, é usual muitas pessoas preferirem estabelecer relações simétricas por que se sentem atraídas pelas respectivas semelhanças em relação a valores, interesses e gostos comuns, bem como traços de personalidade, origens e experiências de vida similares que podem ensejar maior harmonia e estabilidade.
Em um relacionamento simétrico saudável, os parceiros devem também aceitar-se mutuamente em sua singularidade, suas particularidades e idiossincrasias, o que conduz ao respeito mútuo.


      Em geral, quando um relacionamento se estabiliza, é por que os envolvidos já chegaram a um certo consenso sobre o tipo de comportamento que deve prevalecer entre eles. Em casais e famílias, é saudável que os membros se relacionem simetricamente em algumas áreas e com complementaridade em outras.

      Ao longo do tempo, é usual haver uma revisão do tipo de interação. Quando o filho do fundador se torna adulto, é hora do pai revisar seu padrão de relacionamento complementar em direção a uma progressiva simetria, e o filho tem que lutar por esta transformação, sem ser afoito. As frequentes disputas geracionais nas empresas de família demonstram que essa trajetória costuma ser espinhosa.

      Relações difíceis são aquelas em que as pessoas envolvidas têm dificuldade em chegar a um acordo acerca da definição dos aspectos de comando do relacionamento, ou seja, em que áreas a relação será simétrica ou complementar. Na falta de consenso, surgem disputas de comando em torno da qual multiplicam-se os debates e desgastes.

      O erro é que, nessas discussões, as partes não tem consciência do natural contexto de emulação em que estão inseridas. Em função disso, a ênfase é colocada aonde não está o problema, isto é, o foco recai no nível do relato acerca de questões aparentemente objetivas que apenas disfarçam a verdadeira natureza da dissonância. Os embates podem ser conduzidos abertamente por bate boca, ou como é comum, por sabotagens, resistência passiva, triangulações e sintomas.

      Com efeito, parte da atrapalhação decorre de nossa inabilidade de nos comunicarmos sobre a comunicação, ou seja, vem de nossa dificuldade de dialogar sobre nossos padrões de interação, acerca dos aspectos de comando e em que áreas a relação será simétrica e complementar. Círculos viciosos de desgastes não são desfeitos até que harmonizemos esse assunto com o interlocutor.

      Assim, quando um sócio aprova a compra de uma máquina e o outro critica a aquisição, um longo desgastante debate pode se estabelecer em torno das características positivas e negativas do equipamento ou acerca da boa ou má relação de seu custo benefício. Essa discussão não terá fim por que o foco está no lugar errado. A ênfase foi colocada na questão objetiva, enquanto que o problema real está no aspecto relacional e de comando.

      O diálogo poderá ter um desenlace produtivo se for enfrentada a questão de a quem compete o poder, ou seja de quem é a competência interna, a atribuição de tomar esta decisão, se um tem que consultar previamente o outro para poder aprovar uma compra acima de um determinado montante e como deve ser doravante. Falar sobre o padrão de interação e o processo de comunicação (a consulta prévia), é o que chamamos de metacomunicação.

      Vale destacar ainda que o aspecto de relato da comunicação está mais concentrado no conteúdo verbal das palavras, enquanto que o aspecto de comando costuma vir muito embutido no tom da voz, em padrões linguísticos e na linguagem corporal (linguagem não verbal).

      Um diligente empregado pode dizer ao patrão o que fazer, mas se estiver com as mãos para traz, ou o semblante cabisbaixo, ou com o tom de voz humilde, essa linguagem não verbal estará revelando que não se trata de uma petulante manobra pró simetrização. Assim, fica fácil perceber por que uma conversa presencial é muito mais rica do que querer resolver algo por telefone, e muito melhor ainda do que tratar através de e-mail ou de aplicativos de mensagem instantânea, ferramentas estas famosas por provocarem frequentes mal-entendidos…

      Em famílias, os sintomas de uma pessoa muitas vezes são uma manobra para controlar o comportamento de outra em determinadas situações. Quem nunca alegou dor de cabeça ou febre para escapar de um compromisso?

      Os pais enfrentam uma série de dificuldades na criação de uma criança. Se eles destacam demais seus cuidados e controles impondo apenas uma relação complementar, não estarão fornecendo um contexto de aprendizagem onde o filho, em certas situações pode se comportar como um igual.

      De outra parte, se enfatizam demais a igualdade, em prematura direção a uma relação simétrica, afastam a autoridade que é essencial à formação da criança e diminuem a sensação desta estar sendo cuidada, fator que precisa ser bem internalizado para o desenvolvimento da autoestima infantil.

      De volta às quedas de braço, gostaria de encerrar reforçando que não se trata de uma patologia, sendo importante ter sempre presente a noção de que estamos naturalmente inseridos nestas disputas. Essa consciência pode nos ajudar de duas formas distintas:

      a) a absolver nosso interlocutor da recriminação unilateral e injusta que fazemos, repartindo entre todos os envolvidos a responsabilidade pelos desgastes decorrentes dos antagonismos surgidos;

      b) a se envolver mais na metacomunicação, retirando a ênfase de onde não se encontra a raiz do problema, com o objetivo de construir uma relação mais produtiva para o futuro.

      Você, caro leitor, sim você mesmo, pode agora aceitar a suposta autoridade do autor deste ensaio no assunto tratado, ou pode promover uma manobra em busca de simetria em nossa breve interação. Nesse caso, você tem a faculdade de questionar, criticar ou agregar subsídios a qualquer aspecto abordado, enviando uma mensagem para meu e-mail (andre.silveiro@silveiro.com.br). Dependendo do que você esgrimir em seu comunicado, eu terei que optar entre aceitar sua contribuição reconhecendo nossa simetria, ou, opor uma contra-manobra contestando seu imput. Então, aos mais ousados, está lançado aqui o desafio.


Notas:
(1) Especialista em empresas familiares, sócio da Silveiro Advogados. 

(2) Coautora do Livro “Top Dog: The Science of Winning and Losing”.
(3) Jay Haley, “Strategies Of Psychotherapy”, University of Connecticut Libraries, New York, 1963. 
(4) In such struggles words may eventually lose their last vestige of content meaning and become exclusively the tools of “one-upmanship”. Paul Watzlawick, “Pragmatics of Human Communication”, New York, Norton, 2011.

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