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10 Mandamentos da Maturidade

por André Silveiro

I) Onipotência: Abandonar a noção de relevância excessiva que atribuímos à nossa presença no mundo e aceitar o que Calligaris denomina de superfluidade de nossa existência.
Substituir a fantasia de que precisamos realizar obras monumentais para sermos bem sucedidos, amados e respeitados (overachievement (1)), pela noção de selective underachievement (2).
Entender que aspectos inconscientes regem majoritariamente (3) nosso mundo interno e renunciar a busca alucinada de poder sobre a vida (4) . Substituir a ilusão da onipotência e delírios de grandeza pela capacidade de rir de si mesmo e de valorizar as pequenas coisas. Na vida mínima pulsam as máximas emoções (5).
II) Individuação e autoconhecimento: Avançar no processo de Individuação e diferenciação substituindo o peso das expectativas e os valores impostos pela família e pela sociedade (desejo dos outros) por outros princípios e significados mais autênticos e identificados consigo mesmo (self).
Concentrar-se na busca de metas que envolvem interesses internos, crescimento pessoal e enriquecimento dos vínculos humanos ao invés de metas que envolvem apenas acumulação, beleza e prestígio que geralmente servem mais para impressionar os outros, estando submetidas a valores alheios.
Para isso, perseguir um maior autoconhecimento, deixando de ser um forasteiro na própria mente. Identificar, conhecer e buscar equilíbrio entre as personagens internas na infinita jornada de compreender-se e aceitar-se melhor (6).
Diferenciar-se e estabelecer limites (7) às constantes demandas dos outros, administrando a dificuldade de dizer não e a propensão a abraçar responsabilidades e assumir problemas que são de terceiros. Pessoas ainda não diferenciadas podem ser movidas pela alta reatividade às ações de terceiros, ficando, em certas situações, com a autonomia comprometida.
 
III) Inquietudes da alma: Perdoar a vida por ela ser tão diferente dos comerciais de televisão aceitando os caprichos existenciais tais como:
• a mortalidade e demais aspectos dramáticos e trágicos da vida tão bem retratados na obra de Sófocles;
• a inexistência de antídoto para certas dores e inquietudes da alma, tais como a nossa vitalícia solidão interior, a ansiedade crônica, a angústia decorrente da sensação de desamparo ou do vazio básico interno;
• que a vida tem aspectos injustos, mas que pioramos muito a situação nos vitimizando, pelo que devemos evitar nos tornarmos mártir do “coitadismo” e suas inerentes autosabotagem e depressão.
• que a vida é substancialmente governada por fatores que não podemos controlar, sendo-lhe inerente a incerteza, a imprevisibilidade e a casualidade (acaso (8) ) de acontecimentos fortuitos que se sucedem.
IV) Responsabilidade Pessoal: Ainda assim, há espaço para muitas escolhas que fazemos diariamente, mas devemos assumir nosso quinhão de responsabilidade pelas consequências destas decisões e nosso papel nos sofrimentos que atravessamos. Somos responsáveis por nossos sentimentos (que derivam de nossas interpretações e expectativas), pelos nossos pensamentos, e ações, mas não devemos assumir responsabilidade pelos pensamentos, sentimentos ou ações de outros.
V) Ressignificação Histórica: Toda visão que temos da nossa vida passada é ficcional, uma mentira sincera, baseada em pequenos grãos de verdade. Já que se trata de uma simples peça literária, ao menos substitua gêneros trágicos e melodramáticos que trazem uma lama de pessimismo e desesperança, por versões menos gravosas que ajudem a ver a vida por um ângulo mais positivo.
VI) Desejos de reparação: Substituir desejos de reparação (de ser indenizado por perdas subjetivas) pela gratidão e pelo desejo de prestar reparações (9).
VII) Empatia e Senso de Alteridade: Desenvolver o senso de alteridade (ter respeito e consideração para com os outros) e empatia. É a capacidade de “sentir em si”, para “sentir dentro do outro”, o que está de acordo com a etimologia da palavra (em+pathos), derivados do grego. O prefixo “em” designa a ideia de “dentro de”, enquanto o étimo “pathos” indica a ideia de sofrimento, dor (10).
VIII) Visão Complexa: Substituir a visão unidimensional e monocular dos problemas por lentes multifocais de ótica perceptual com diferentes vértices de visualização e uma perspectiva mais sofisticada, complexa e abrangente da realidade.
IX) Frustrações e Resiliência: Aprimorar a capacidade de diferir algumas satisfações e uma maior tolerância com os outros e às frustrações e contrariedades a que todos estamos sujeitos. Se quiser viver com seres perfeitos, mude-se de planeta. Desenvolver a capacidade de lidar com adversidades e suportar pressões sem se deixar abater intensamente.
X) Educação Continuada e Crescimento Pessoal: Devemos ser eternos aprendizes, visando permanente desenvolvimento pessoal e profissional. E buscar atividades que propiciem ao máximo a sobreposição entre os três eixos a saber: "o que me traz significado por ser identificado com meu self?"; "o que me dá prazer?"; "quais são os meus pontos fortes?". Trata-se de descobrir qual é o melhor encaixe do mundo externo com as atividades aderentes à minha vocação e minha competência e identificar as coisas que realmente quero fazer na escola, no trabalho, e com minha vida como um todo.


Notas:
(1) Some views reduce humans to machines: to suppose that the basic goal is the efficient maximization of achievement. (Badaracco, Joseph L. Jr., “Questions of Character”: Professor de Ethics, Harvard Business School)
(2)  … to make a genuine difference in the small sphere of life around you (Badaracco)
(3)   A aceitação clara e inconteste da inconsciência que rege quase que totalmente nossa vida interna é condição essencial para a manutenção da saúde. (Paulo Guedes, “A Paixão”).
(4)   A busca ilusória e desenfreada de poder sobre a vida é a única etiologia que tem sentido no desenvolvimento de doenças mentais de origem emocional. (Paulo Guedes, “A Paixão”).
(5)   Diana Corso, “Tomo Conta do Mundo: Conficções de uma Psicanalista.”
(6)  Vide o ensaio “Gerenciando a Equipe Interna”;
(7)  The key here is that the other person is not responsible for our limits; we are. (Henry Cloud and John Townsend, "Boundaries: When To Say Yes, How to Say No").
(8) Sentimento de responsabilidade pessoal é imprescindível para a manutenção da saúde mental; isso requer a aceitação integral do acaso como fator essencial na vida humana.
(9)  The ultimate struggle in analysis-that of getting the analysand to assume responsibility for his or her castration instead of demanding compensation for it Castration is the acceptance that one is less-than-perfect, limited, not all-powerful and able to control or satisfy the world. (A Clinical Introduction to Lacanian Psychoanalysis, Bruce Fink).
(10)  David Zimerman, “Fundamentos Psicanalíticos”, Porto Alegre: Artes Médicas, 1999, pg. 352

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